a saga do antigo matadouro

 


A Gênese da Cerâmica de Cunha


Os índios faziam cerâmica em Cunha, tenho muita curiosidade de ver o que restou dessa cerâmica. As paneleiras devem ter herdado técnicas e processos deles e ao tempo em que escrevo a última das tradicionais está quasi centenária.
O tijolo burro, tijolinho, constitui a mais antiga "indústria" de Cunha. Uma produção totalmente manual, sem máquinas, sem edificações, uma relação estreita e impactante entre o homem e o solo. Possibilidade de o homem mais despossuído do lugar se tornar empresário pela relação entre a mão e a terra. Cerâmica na mais pura acepção da palavra. As olarias de tijolo são de uma beleza plástica surpreendente. O que mais me interessa explorar em Cunha é esse arcaismo criador, regenerador de valores e ritmos da era pré-industrial.

Cheguei em Cunha em 1975. Em 1970 terminei Arquitetura em Portugal e viajei para o Japão com bolsa para estudar a habitação tradicional Japonesa, arquitetura da madeira. As lições do passado sempre foram para mim mais inspiradoras que as maravilhas do presente. O equilíbrio entre o geometrico e o orgânico me agradando sempre mais que o absolutismo tecnocrático reinante na nossa cultura urbana.

No Japão me apaixonei pela cerâmica. Sem forno, queimava nos fornos de alguns amigos, entre eles Toshiyuki e Mieko. Eu pretendia viajar para o Brasil, com Maria Estrela Vieira e combinámos, junto com eles montar um forno Noborigama no Brasil.
Em 1973 em São Paulo fiz amizade com o grupo da Futura Publicidade, Gilberto Jardineiro, Vicco e Toninho Cordeiro, todos nós sem ainda o saber, futuros nomes da cerâmica de Cunha. Me envolvi com eles em projetos vários, de destacar o grupo Takê, na Bahia.
Em 1975 chegaram finalmente Toshiyuki e Mieko. Toshiyuki o mais ceramista de todos nós desenhou um forno híbrido de anagama e noborigama, como o corpo de um inseto, cabeça, torax e abdomen.
Nesse forno que cuspia fogo pelos lados trabalhámos até 1984 Maria Estrela e eu.

Do que aconteceu entre 1975 e 1984 pode ser feita uma tabela cronológica:
1975 Chegada de Toshiyuki e Mieko Ukeseki. Inicio do atelier do matadouro em comodato da Prefeitura. Construção do forno do matadouro pelos membros Toshiyuki, Mieko, Vicco, Toninho e eu. Queima inaugural. Partida de Gilberto Jardineiro para o exterior. No final do ano eu parto para Portugal onde permaneço até ao final de 1976.
1976 Vicco e Toninho saem de Cunha. Luís Toledo e Shugo Izumi se tornam estagiários de Toshiyuki e Mieko.
Fazem primeira abertura de fornada da história de Cunha.
No final do ano eu volto para Cunha e o atelier.
1977 Mieko sai de Cunha e do atelier. Maria Estrela volta de Portugal.
1978 Primeiro Encontro de Ceramistas em Paraty. Toshiyuki volta para o Japão. eu elimino a câmara longitudinal do forno do matadouro. O atelier começa a expor em São Paulo como Atelier do Antigo Matadouro. Leí Galvão inicia seu estágio no atelier.
1979 Nasce minha filha Maria do Sol
1980 Augusto Campos inicia estágio no atelier. Prefeitura reclama o imóvel do matadouro.
1981 Mieko volta a Cunha
1982-84 Construção da casa e atelier no Cajuru.
1984 O forno Noborigama do novo Atelier do Antigo Matadouro é contruído com os tijolos do antigo, demolido forno do matadouro. Gilberto Jardineiro volta ao Brasil e inicia seu atelier com Kimiko Suenaga.
1987 Parto para Portugal, em 1990 para o Japão e até 2002 estou ausente de Cunha, salvo curtas visitas. Leí e Augusto se associam, construindo o maior forno Noborigama de Cunha.

A partir de 1987 a cerâmica evoluiu em Cunha de formas que acompanhei de longe. Nesse periodo Gilberto e Kimiko iniciaram o costume das aberturas de fornada abertas ao público. Mieko consolidou sua posição como artista plástica da cerâmica. Toledo, Leí e Augusto produziram com regularidade em seus fornos Noborigama. E ceramistas de São Paulo escolheram Cunha para montarem seus ateliers.

Voltei em 2002 e desde então Cunha continua sendo um polo de atração de novos ceramistas, agora com cerca de 20 ateliers.
Em 2005 realizámos o Primeiro Festival de Cerâmica de Cunha, comemorando 30 anos sobre a construção do primeiro forno Noborigama, no matadouro. Sai o livro "30 anos de cerâmica em Cunha".
Em 2006 é fundada a Cunhaceramica, associação dos ceramistas de Cunha.

Alberto Cidraes

Primeiro Festival de Cerâmica de Cunha e História Ilustrada dos primeiros tempos